Estava na Hora da Ford sair do Brasil?

por charles – 01 de abril de 2021

Que a Ford saiu do Brasil já não é novidade para ninguém, a notícia impactou todo o setor automobilístico no país e incluiu junto a política.

Mas por que será que a montadora multinacional que vendia muito em solo brasileiro resolveu sair de cena? O que contribuiu para o acontecido?

A empresa gastou US$ 4,1 bilhões para fechar as três principais fábricas brasileiras, perdeu vendas nos modelos restantes (devido à queda da confiança dos clientes) e abriu mão do que já foi investido nos projetos que estavam em gestação, além da possibilidade de poder recuperar mercado com esses lançamentos.

Abaixo, separamos os principais motivos do porquê a Ford saiu do Brasil, e com razão. Leia conosco:

Mercado Brasileiro

Mercado Brasileiro 

Acontece que um dos maiores empecilhos da Ford no Brasil era o seu mercado, ou seja, os carros que mais vendiam entre seu catálogo.

Os hatches e sedãs compactos ainda são os que mais vendem em solo brasileiro, representando um total de 59% das aquisições automotivas.

Dessa forma, os 41% restantes se desdobram em outras categorias. O ruim disso é que essa fatia de mercado é a que menos fatura.

Por se tratarem de carros extremamente acessíveis, sua margem de lucro é muito pequena e pode acabar complicando qualquer montadora com a gestão mais incrível que seja.

O detalhe é que pelo menos 67% das vendas da Ford estavam nessa fatia de mercado.

O mercado brasileiro de automotivos ainda sofre a sua maior queda nos últimos anos, agravado pelo fator pandemia.

Em 2020 apenas 2 milhões de veículos foram vendidos, englobando todo e qualquer tipo de venda de carro 0km.

Piorando o cenário da Ford, se olharmos em relação ao seu faturamento em nível mundial, o Brasil confere apenas 4,1% de todo o faturamento da montadora multinacional americana.

Tributos e Burocracia

Tributos E Burocracia 

O Brasil está entre um dos países mais burocratas em todo o mundo, o que dificulta a vida de qualquer empresário pequeno ou de uma multinacional.

Afinal, o preço pago pelo carro no Brasil é muito alto em relação a qualquer outro que você possa encontrar mundo a fora.

Quem não conhece algum amigo que foi até os EUA e voltou com um celular que aqui custa rios de dinheiro, mas lá custa menos da metade?

Dessa forma, as montadoras precisam arcar com a difícil tarefa de vender com um custo baixo pra gerar capital, mas que dê conta de todas as taxas e tributos cobrados.

Enquanto nos Estados Unidos um carro possui 6,8% de impostos, no Brasil esse número chega a incríveis 30,4%.

Sobre a imprevisibilidade, imagine explicar a um CEO alemão ou japonês que as regras do ano passado já não se aplicam mais porque algum governo mudou os planos ou não cumpriu o prometido.

Veja o caso do estado de São Paulo, que de uma hora para outra e em plena crise aumentou o ICMS das lojas que vendem carros usados em 207%?

Outro exemplo é que Audi, BMW e Mercedes não sabem quando o governo brasileiro devolverá R$ 290,7 milhões de créditos referentes ao investimento por terem montado suas fábricas aqui.

Dá para fazer planos de longo prazo em um ambiente como esse, considerando que uma empresa que lança um carro totalmente novo hoje teve de iniciar o projeto há quatro anos?

Setor Eletrificado

Setor Eletrificado 

Goste você ou não, o futuro do mundo automobilístico são os automóveis elétricos, que estão tomando a cena em países europeus, na China, Japão e principalmente nos EUA com a Tesla.

Porém, para essa transformação acontecer é necessário que o país forneça o mínimo de infraestrutura possível, o que não acontece aqui no Brasil.

A diferença entre buracos no asfalto em terras brasileiras comparado ao resto do mundo é exorbitante.

Dessa forma, a Mercedes-Benz começou saindo do país, agora seguida da Ford, uma das últimas montadoras multinacionais a entrarem no setor eletrificado.

Erros da Ford no Brasil

Erros Da Ford No Brasil 

Mas, os erros não são somente parte do governo brasileiro e sua burocracia, isso porque a montadora vem de uma sucessão de erros de sua gestão local.

Entre os erros mais conhecidos da Ford está a Autolatina, o casamento com a Volkswagen de 1987 a 1996. Parecia uma boa ideia unir a excelência em engenharia dos alemães com a expertise financeira dos americanos.

No início, elas ganharam um bom dinheiro, mas a diferença cultural fez tudo naufragar, especialmente porque a VW mandava na joint-venture por ter 51% das ações. Como resultado, a Ford saiu menor do que entrou: sua participação de mercado caiu de 21% para 11%.

Os erros de continuação de seus modelos também marcam uma era, afinal, não vemos mais sucessos de vendas da Ford como era antigamente.

Atualmente, os carros da GM, Fiatr e VW tomaram conta do cenário nacional, e até mesmo a febre de vendas EcoSport deu seu lugar para outros SUVs compactos que cabem melhor no bolso do brasileiro com modernizações ainda maiores.

Estratégia da Ford a nível Mundial

Como você deve bem saber, a Ford com sua gestão a nível mundial se renovou com políticas novas e sustentáveis em uma decisão tomada no ano de 2018.

A partir dali, o foco estaria em carros eletrificados, SUVs e picapes que trouxessem uma margem de lucro maior, eliminando de vez os carros econômicos tão vendidos aqui no Brasil.

Somente essa decisão já descarta todo o mercado brasileiro, que sustenta as vendas da Ford local com hatches e sedãs compactos.

Para complicar o cenário, a Ford local nunca teve o mesmo prestígio e autonomia de outras filiais brasileiras, como a FCA (que tem no Brasil um dos maiores mercados da marca no mundo) ou da VW (que tem tradição de desenvolver veículos para a matriz).

É o que explica por que várias decisões que deveriam ser da Ford brasileira ficavam a cargo da sede, como preço dos carros, por exemplo.

Históricos Negativos de Resultados no Brasil

Se você, como presidente mundial da Ford, ainda não está totalmente decidido após ouvir tudo isso, talvez ceda ao último argumento.

Imagine que alguém lhe traz o arquivo com o histórico dos últimos 40 anos antes de decidir se dará mais uma chance à unidade brasileira.

Primeiro você descobre que a filial já esteve perto da falência no início dos anos 80 (por isso mergulhou de cabeça na Autolatina).

Depois, constata que ela novamente quase fechou as portas no fim dos anos 90, quando foi salva pela dupla EcoSport e o presidente-celebridade Antonio Maciel Neto, aquele que pagava R$100 a quem testasse um Ford e comprasse o concorrente. Por último, você lembra que a filial está dando prejuízo desde 2013.

Então me diga: o que você faria no lugar do presidente da Ford?

E então, o que achou dos detalhes que trouxemos sobre os principais motivos da saída da Ford do Brasil? Ficou alguma dúvida em relação ao conteúdo? Conte a nós, comente abaixo!

Até a próxima!

 

Comentários

Seu endereço de e-mail não será publicado.